Desconheço IES inovadoras que tenham abolido conceitos e teorias do processo de ensino e aprendizagem. Às vezes acontecem distorções, pois há pessoas que fazem confusão ao acreditarem que a inovação acadêmica representa o enfraquecimento da formação teórica.  A inovação disruptiva em uma instituição de ensino não poderá romper com os princípios do ensino superior, especialmente, com a solidez da formação das pessoas.

Há instituições que eliminaram disciplinas convencionais,  porém, os estudantes continuam dependendo do domínio da língua nativa, da matemática ou da física, por exemplo. Inovar não é acabar com matemática ou português, é saber como incluí-las em um currículo desafiador. A discussão não é sobre o fim ou a permanência das disciplinas. É sobre a estratégia que trará melhor impacto no aprendizado.

Transformar o ensino superior não significa abolir conhecimentos. Ciência e tecnologia provêm do ensino, da aprendizagem, da pesquisa e da extensão. Quem tem dificuldades com a língua portuguesa terá problemas com a escrita e com a comunicação. O novo não pode ser vazio e líquido. Ensino superior exige formação sólida. A inovação deve ser resultado de reflexão e conhecimento sobre o que se quer inovar e por quê.

As IES precisam priorizar a formação por competências, precisam integrar o conhecimento com projetos, não com disciplinas estanques. A educação necessita instigar a criatividade, o sonho, o empreendedorismo, a compreensão do mundo, a cidadania, o respeito à diversidade e romper com o convencionalismo, inclusive, das avaliações que estimulam as decorebas, não o aprendizado.

As IES necessitam enfrentar o desafio de oferecerem uma formação integral. Aliás, nos primeiros anos das graduações acredito que os estudantes devem descobrir o mundo do ensino superior, as competências das soft skills e serem estimulados a buscar o conhecimento como protagonistas do aprendizado e a desenvolver projetos.

Posteriormente, os estudantes poderiam começar a se vincular a uma determinada área do conhecimento: engenharia, medicina, direito ou história, entre outros. As IES que não fazem isso justificam que está na cultura do estudante o desejo por disciplinas específicas, logo nos primeiros semestres.  Eu diria que é uma cultura inventada pelas próprias IES. Há uma convenção de organização do currículo e poucos ousam fazer diferente.

Não se pode pressentir a morte do ensino superior, mas que ele é e será transformado continuamente. Há IES com maior capacidade de transformação, há IES mais lentas e, provavelmente e há aquelas que falam sobre como mudar, mas que continuam vendo o mundo das janelas dos seus gestores. A sociedade é dinâmica, os comportamentos mudam, as tecnologias mudam e as instituições precisam se adaptar.

Conheço gestores que refizeram a organização curricular dos cursos de graduação e dos planos de ensino das disciplinas, porque constataram repetições ou temas que não estavam alinhados com o perfil dos egressos.

Há currículos esdrúxulos, há tópicos em nossos planos de ensino que talvez não façam sentido para a formação dos nossos estudantes, mas é preciso ter sabedoria para fazer escolhas. Não se pode excluir o que é formação para a vida, para as competências, para o que é base para a ciência, para a tecnologia e para a formação integral.

As IES precisam buscar novos parâmetros de qualidade e novos paradigmas para o ensino superior. Não dá para continuarmos com o risco do modelo de educação da era industrial e de oferecermos um diploma com pouco valor. Pode até ser uma opção “destruir o atual paradigma da IES para reconstruí-lo”, mas a reconstrução, provavelmente, será feita com base na  história da IES.

Espero que os gestores façam inovação, que busquem a transformação de forma contínua e que tenham maturidade para não caírem no dilema de “vida ou morte” (faça isso ou morrerá). As boas IES oferecem formação sólida, pois sabem que o diploma tem de agregar valor.

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